A espera
"Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.” Llansol
No espelho daquele quarto branco de hotel. A superfície lisa reflete as curvas da cintura adolescente, os cabelos compridos deslizam pelos ombros, tingindo de negro o rosa-carne da pele. Com a ponta dos dedos, ela acompanha sua silhueta no espelho, surpresa, a luz branca e laranja entrando pela janela no entardecer da cidade. Os olhos castanhos sorriem tímidos no reflexo; não importa a cama pequena, a colcha surrada, o carpete cinzento, áspero na sola dos pés. Não importa; o sol desce morno pintando de rosa as nuvens, a cidade, as faces, as unhas que agora acariciam a pele, que desperta como que pela primeira vez. Que desperta, sozinha, no desejo da noite que se aproxima, da noite em que seus corpos se abraçam, mais uma vez.
No espelho daquele quarto branco de hotel. A superfície lisa reflete o desejo nos seus olhos, o medo, as horas que passam. Anoitece, ela continua só, o corpo desperto já não espera. Ele não veio, não vem.
Mas não importa. O rosa do pôr-do-sol tingiu tudo por dentro, explodindo em outras cores, tons pastéis suaves de lingerie, manchando as paredes e a memória. Ela se lembra lá de fora, mas não há porque sair. Já é noite, ele não vem; ela fecha as janelas. O azul do remédio dissolve-se por debaixo da língua, arrastando outras cores pela corrente sanguínea, percorrendo o corpo desde a raiz dos cabelos até as unhas roxas dos pés. No espelho ela sorri e tenta guardar na memória cada linha do seu corpo rarefeito de menina, que se funde ao chão e às paredes como uma mera partícula. Como um pequeno nada.
Um dia ela se recordará desse quarto, da espera, do seu corpo-coração de dúvidas e desejo.
E vai dar graças a deus por ter dormido ali sem ele, só ela e o azul do analgésico adormecendo a vontade.


